Trabalhar com perícia exige mais do que conhecimento técnico sobre determinado assunto. O profissional também precisa compreender como funciona a atividade pericial, desenvolver capacidade de análise, aprender a elaborar documentos técnicos e conhecer as responsabilidades envolvidas quando o trabalho é realizado dentro de um processo judicial.
Para quem está começando, é comum surgir uma série de dúvidas: qual área escolher? É necessário entender de Direito? Como elaborar um laudo? Como funciona uma nomeação? Existe algum tipo de formação específica?
O primeiro passo é entender que existem diferentes áreas de perícia e que cada uma pode exigir conhecimentos e qualificações próprias. Por isso, estudar de forma organizada é fundamental para construir uma atuação profissional consistente.
Comece entendendo o que é perícia
A perícia é uma atividade técnica utilizada para analisar fatos que exigem conhecimento especializado.
No processo judicial, o Código de Processo Civil estabelece que o juiz pode ser assistido por um perito quando a prova de determinado fato depender de conhecimento técnico ou científico. A legislação também prevê a nomeação de profissional especializado no objeto da perícia e requisitos relacionados ao cadastro e à qualificação profissional.
Por isso, antes de pensar em cadastro em tribunais ou elaboração de laudos, é importante compreender o que faz um perito judicial e quais são suas responsabilidades dentro do processo.
O profissional precisa atuar com imparcialidade, fundamentar tecnicamente suas conclusões e responder às questões relacionadas ao objeto que está sendo analisado.
Escolha uma área de especialização
Não existe apenas um tipo de perícia.
Dependendo da formação e dos conhecimentos do profissional, existem diferentes possibilidades de especialização, como:
- perícia contábil;
- perícia de engenharia;
- perícia ambiental;
- perícia médica;
- perícia trabalhista;
- perícia grafotécnica;
- documentoscopia;
- avaliação de bens;
- investigação técnica relacionada a documentos.
Antes de escolher, pesquise quais conhecimentos são necessários naquela área e se existem requisitos profissionais específicos.
Em determinadas perícias, a legislação ou a natureza técnica do objeto pode exigir formação ou habilitação profissional correspondente. Por isso, não é adequado presumir que qualquer curso isolado habilita automaticamente uma pessoa para qualquer modalidade de perícia.
Estude o funcionamento do processo judicial
Quem pretende atuar em perícias judiciais não precisa necessariamente transformar seus estudos em uma graduação completa em Direito, mas precisa entender os conceitos que aparecem na rotina do trabalho.
É importante conhecer termos como:
- nomeação;
- quesitos;
- assistente técnico;
- laudo pericial;
- honorários;
- impugnação;
- manifestação;
- prazo;
- diligência.
Também é necessário compreender onde o perito aparece dentro do processo e como deve se comunicar tecnicamente com o juízo.
O Código de Processo Civil determina, por exemplo, que, após a nomeação, o profissional deve apresentar informações como proposta de honorários, currículo com comprovação da especialização e contatos profissionais, observadas as regras do caso concreto.
Aprenda a trabalhar com quesitos
Os quesitos são perguntas relacionadas ao objeto da perícia.
Durante um processo, as partes podem apresentar questionamentos que deverão ser considerados pelo profissional no trabalho técnico.
Por isso, quem deseja atuar nessa área precisa aprender a:
- interpretar perguntas;
- identificar o objeto da análise;
- separar fatos de opiniões;
- responder tecnicamente;
- fundamentar conclusões;
- evitar afirmações fora de sua área de conhecimento.
Uma resposta pericial deve ser clara o suficiente para que pessoas que não dominam aquela especialidade consigam compreender o raciocínio apresentado.
Estude elaboração de laudos
O laudo é um dos documentos mais importantes do trabalho pericial.
Não basta conhecer a técnica se o profissional não consegue registrar de maneira organizada o procedimento realizado e explicar como chegou às conclusões.
Por isso, uma boa formação em perícia judicial deve ajudar o estudante a desenvolver raciocínio técnico e capacidade de documentação.
Um laudo pode envolver elementos como:
- identificação do objeto;
- metodologia;
- materiais analisados;
- procedimentos realizados;
- fundamentação;
- respostas aos quesitos;
- conclusão.
A estrutura pode variar conforme a área e as características da perícia.
Desenvolva escrita técnica
A escrita utilizada em um documento pericial deve ser objetiva.
Textos excessivamente informais, afirmações sem fundamento ou linguagem ambígua podem comprometer a compreensão do trabalho.
Por isso, ao estudar, pratique a produção de relatórios.
Escolha situações hipotéticas e tente explicar:
- o que foi analisado;
- qual método foi utilizado;
- o que foi encontrado;
- quais limitações existiram;
- qual conclusão pode ser tecnicamente sustentada.
Essa prática ajuda a transformar conhecimento teórico em capacidade profissional.
Faça uma formação direcionada
Para quem ainda não conhece a rotina pericial, estudar por meio de uma formação estruturada pode ajudar a organizar o aprendizado.
Um curso para peritos pode apresentar técnicas específicas, exercícios, modelos de documentos e situações próximas da rotina profissional, dependendo da área escolhida.
Na perícia grafotécnica, por exemplo, os estudos podem envolver análise de assinaturas e escritas manuscritas, características gráficas e elaboração de conclusões técnicas.
O importante é avaliar previamente o conteúdo oferecido e entender exatamente qual competência o curso pretende desenvolver.
Estude uma especialidade de cada vez
Um erro de quem está começando é tentar dominar várias áreas simultaneamente.
O melhor caminho costuma ser construir primeiro uma base sólida.
Depois de compreender fundamentos da perícia judicial, escolha uma área e aprofunde conhecimentos relacionados a ela.
Quem opta pela grafotecnia, por exemplo, deve estudar o método aplicado a exames de escrita e documentos.
Depois, pode ampliar seus conhecimentos para áreas relacionadas.
Um Curso de Perícia Judicial pode funcionar como parte dessa preparação, mas o desenvolvimento profissional também exige estudo contínuo e prática.
Conheça áreas relacionadas à investigação técnica
Durante os estudos, você provavelmente encontrará especialidades que não são exatamente iguais à perícia grafotécnica.
Um exemplo é a papiloscopia, relacionada à identificação humana por impressões papilares.
Entender o que é papiloscopia ajuda a diferenciar áreas de conhecimento que muitas vezes são confundidas por iniciantes.
Grafotecnia, documentoscopia e papiloscopia trabalham com objetos e metodologias diferentes. Conhecer essas distinções evita escolher uma formação pensando que todas as atividades periciais funcionam da mesma maneira.
Monte uma rotina de estudos
Regularidade é mais importante do que tentar estudar tudo em poucos dias.
Você pode dividir sua preparação em etapas.
Comece pelos fundamentos da perícia e do processo judicial. Depois, passe para a técnica escolhida. Em seguida, pratique interpretação de quesitos e elaboração de laudos.
Também vale reservar tempo para:
- leitura de materiais técnicos;
- exercícios práticos;
- análise de documentos;
- estudo de terminologia;
- atualização profissional.
Ao longo do tempo, crie seu próprio material de consulta.
Aprenda antes de pensar nas primeiras nomeações
É natural que quem inicia os estudos queira rapidamente trabalhar em processos.
Entretanto, receber uma nomeação significa assumir responsabilidade técnica.
Por isso, o foco inicial deve estar na preparação.
Antes de buscar atuação, pergunte a si mesmo:
- Consigo compreender o objeto da perícia?
- Sei aplicar corretamente a técnica?
- Consigo responder quesitos?
- Sei explicar minhas conclusões?
- Consigo elaborar um laudo organizado?
- Conheço os limites da minha área?
Quanto mais preparado estiver, maior será a segurança para executar o trabalho caso seja nomeado.
Mantenha seus conhecimentos atualizados
A perícia não é uma atividade em que o profissional estuda uma vez e considera sua formação encerrada.
Técnicas evoluem, procedimentos podem mudar e novos recursos tecnológicos surgem.
Além disso, o próprio Código de Processo Civil prevê avaliações e reavaliações periódicas dos cadastros de peritos pelos tribunais, considerando aspectos como formação profissional, atualização do conhecimento e experiência.
Portanto, atualização deve fazer parte da carreira.
Conclusão: comece pela preparação
Quem deseja trabalhar com perícia deve construir uma base antes de buscar atuação profissional.
O caminho começa pelo entendimento da função do perito, passa pelo estudo do processo judicial e segue para a escolha de uma especialidade, domínio da técnica, interpretação de quesitos e elaboração de laudos.